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Reflexões sobre C#, .Net e programação em geral

Hoje é o meu último dia de férias. Isso quer dizer que amanhã vou ter de voltar ao meu "querido" trabalho (yac!). Ao longo destas últimas semanas foi possível assistirmos a mais um problema tipicamente português! Estou a falar dos aumentos salariais dos funcionários públicos. Apesar de actualmente eu estar a trabalhar numa secretaria , vou tentar efectuar uma análise parcial.

Apesar de estarem a pensar que vou discutir os aumentos, eu prefiro concentrar-me nos argumentos utilizados por ambas as partes. Ora bem, os sindicatos justificam os aumentos com inflação e a falta do poder de compra ao longo dos anos; por outro lado, o governo justifica o baixo aumento com a falta de produtividade dos trabalhadores. Ambos os argumentos são válidos!

A minha opinião: é o tradicional problema da galinha e do ovo! Ou seja, como é normal em Portugal, voltámos a ficar num impasse. Por um lado, concordo com o ponto de vista do governo. Para mim, a falta de competetividade do nosso país está directamente relacionada com a nossa falta de produtividade (e, já agora, de profissionalismo). Por outro lado, também não acho justo pedir a uma pessoa que trabalhe mais pelo mesmo ordenado.

Após este ano de permanência na função pública pude aperceber-me de várias coisas muito interessantes (que, provavelmente, também acontecem nas empresas). Num mundo perfeito, as pessoas deveriam ser disitinguidas com base na sua produtividade. Assim, um individuo que soubesse mais do que os outros deveria, como é normal, ganhar mais. Contudo, este mundo não é perfeito (aliás,está muito longe disso). No mundo real, não importa (SÓ) ter alguns conhecimentos, trabalhar e apresentar resultados; para além disso (ou melhor, em vez disso), é preciso ter uma das seguintes características: a) lamber as botas a todos os chefes ou b) ter cunhas importantes (por exemplo, pertencer ao partido que está no poder) ou então (e esta é, na minha opinião, a melhor de todas) c) ter simultaneamente as características indicadas na alínea a) e b).

O que me leva a dizer isto? Como referi, um ano de observação! Aliás, nesta altura, tenho argumentos válidos para contrariar o governo nas suas teses relativas ao aumento dos ordenados. Quando dizem: então têm que trabalhar mais para ter aumentos no ordenado! Eu respondo: é uma boa teoria, mas na prática, são sempre os mesmos a trabalhar. Ou seja, 2 ou  3 trabalham, enquanto os outros continuam a descansar e não são sujeitos a quaisquer penalizações pois estão incluídos nas alíneas indicadas no parágrafo anterior. Qual é a motivação que eu tenho (para além do meu profissionalismo) para ir trabalhar para um lugar onde eu vejo que o único objectivo das pessoas é receber o ordenado no fim do mês (e onde eu sou o que ganho menos - e uma coisa posso garantir: não sou o que sei menos)? Eu considero-me um bom profissional. Contudo, há limites para tudo. Ainda lembro-me dos primeiros dias de trabalho. O projecto era aliciante; estava enquadrado num grupo de 4 pessoas. Lembro-me de pensar: isto vai ser divertido...até lembro-me de entrar às 8:30 (sim, é verdade) e de levar trabalho para casa sem nunca receber uma única hora extra!

Então o que aconteceu? Bem, o que costuma acontecer sempre na função pública! Quem já está há muito tempo  sem fazer grandes coisas, não gosta de, de um dia para outro, ter de fazer muitas coisas...Pior: ver alguém fazer alguma coisa nova! E ainda existem os outros que, quando aparecem, só vêm para descansar. São episódios únicos que nunca pensei serem possíveis. Pode ser que um dia descreva com mais pormenores estas situações. Actualmente tenho muitas dificuldades em trabalhar naquele ambiente. A maior parte das pessoas diz: faz como eles! E eu digo: ok, vou fazer isso. O problema é que não consigo. Aliás, já o tentei fazer, mas acabo sempre por não conseguir. O meu profissionalismo acaba sempre por vencer e eu acabo sempre por fazer o meu trabalho e o dos outros. Contudo, como podem depreender através deste post, já estou a ficar muito chateado e farto de estar a fazer este tipo de coisas!

Podem estar a perguntar: se é assim tão mau, porque é que não arranjas outro trabalho? Boa pergunta! A minha resposta é simples: este trabalho (apesar de todos os aspectos negativos apresentados) é o único que me permite fazer uma das coisas que gosto: programar. Actualmente, e devido a motivos pessoais (ou melhor, essencialmente devido a motivos familiares - a minha mulher é professora, e como todos devem saber, é impossível arranjar trabalho no continente) não me é possível fazer aquilo que já me apeteceu várias vezes: largar tudo e arranjar um trabalho no continente ou mesmo no estrangeiro! Ah, por hoje chega (já estou mais leve)!

posted on Monday, September 13, 2004 12:00 AM
Comments
  • # re: Regresso ao trabalho e reflexões sobre o estado do país
    Pedro Santos
    Posted @ 9/13/2004 8:18 AM
    Eu tenho de concordar contigo nessa da função pública... há cerca de 4 anos estagiei na Câmara Municipal da Amadora e logo das primeiras coisas que me disseram, foi para trabalhar devagar se não depois não tinham nada para eu fazer.

    E eu via, a maior parte do pessoal, principalmente os chefes, chegavam às 10h30, iam almoçar às 12h, voltavam lá para as 15h e depois abalavam às 17h.

    E a maior parte do tempo que tava lá toga a gente, passava-se a conversar. A engenheira chefe deve ganhar um balúrdio. E eu pergunto: porque é que ela tem de ganhar mais que a minha mãe? A minha mãe recebe o ordenado mínimo, e trabalha numa escola num bairro muito difícil, muitas vezes tem de tratar de crianças e levá-as ao hospital. Enfim, acho que é um trabalho com muito mais valor.
  • # re: Regresso ao trabalho e reflexões sobre o estado do país
    Joao Paulo Carreiro
    Posted @ 9/13/2004 11:06 AM
    Luis, isto foi um bom post que nos dá, a quem ta por fora, um bom vislumbre do se passa dentro da funcao publica.

    Eu nao posso comentar muito pois nunca trabalhei em funcao publica ( tirando uns dois mesistos atraves OTL durante as minhas férias de verao quanto tinha uns 16 anos). E tudo o q fiz foi entrar dados num PC.
    Mesmo assim deu pra notar que as coisas eram para se fazer devagar, muito devagar e parado...

    Se é realmente como dizes, e esforco nao é recompensado, entao seria muito dificil para qq ser humano sentir motivacao para trabalhar... E sem motivacao nao há nada...

    Mas se estás assim tao mal ai, que tal fazeres um review a sério da tua situacao?
    Dizes que nao é possivel para a tua esposa conseguir trabalho no continente, mas e que tal as outras ilhas? Será que nao conseguias nada nos Acores ke te fizesse ficar mais contente e ela também?

    E quanto a emigracao? Talvez nao seja tao mal como pensas... ( Afinal eu tou fora "dai", e sim os primeiros meses foram dificeis, mas agora estou bem).

    Atencao, q "lambebotas" e "cor do partido", vais ver na maior parte das empresas, mas nas empresas por onde passei o esforco é mesmo recompensado, e quem nao faz nada acaba por ser descoberto e "removido" ( ou pelo menos leva um abanao para ver se acorda).
  • # re: Regresso ao trabalho e reflexões sobre o estado do país
    Luis Abreu
    Posted @ 9/13/2004 11:43 AM
    Apesar de tudo, tenho de referir que ainda ha pessoas que trabalham. Por exemplo, a minha mae tambem trabalha na funcao publica (e chefe de seccao) e todos os dias leva trabalho para casa (ja para nao falar que nunca sai antes das 7 da tarde). Claro que ganha menos do que um tecnico superior, o que, na minha opiniao, e vergonhoso.O problema da funcao publica e que a grande maioria limita-se a descansar. Para alem disso, aqueles que trabalham nunca sao recompensados. Provavelmente o melhor termo a aplicar para classificar a funcao publica e show time (ou seja, o que importa e mostrar, dar a entender que se faz alguma coisa, apesar de na verdade nada disso acontecer).
    Em relacao a mudar de local, torna-se um pouco dificil. Nas ilhas nao ha empresas de desenvolvimento. Ou melhor, existem muito poucas (que me lembre, ca so existe uma que apenas se dedica ao desenvolvimento - ja trabalhei la e demiti-me duas vezes). A unica actividade que me poderia dar algum rendimento seria a formacao profissional. So q esta area padece dos mesmos problemas da funcao publica (para conseguir vaga de formador e extremamente complicado - e o factor cunha a funcionar novamente).
    Na verdade existem dois problemas que impedem a minha saida da ilha: um ja referi no post; o outro prende-se com o facto de actualmente estar a pagar a minha casa.
    Tambem ja considerei a hipotese de obter um trabalho que funcionasse a base de tele-trabalho, ou seja, em que a presenca nao fosse requerida durante todos os dias. Infelizmente nao ha grandes hipoteses para isso ca em Portugal. Tambem ja pensei em iniciar a minha actividade como consultor (ou algo semelhante) - assim trabalharia x tempo num projecto e depois estaria disponivel para outro tipo de aplicacoes. Esta (provavelmente) seria uma solucao que me permitiria obter o melhor de dois mundos: satisfacao profissional e possibilidade de nao me ausentar durante muito tempo da minha casa.
  • # re: Regresso ao trabalho e reflexões sobre o estado do país
    Joao Cardoso
    Posted @ 9/13/2004 2:18 PM
    Olá Luis

    Como em tudo na vida nao ha situações perfeitas. Ha as mais perfeitas e as menos perfeitas.

    O que tens de estabelecer é prioridades. O que é que te poderia dar mais estabilidade a nivel familiar e financeiro? O emprego da tua esposa ou o teu?

    O teu tipo de trabalho precisa de flexibilidade, disponibilidade e uma aposta muito forte em termos de evolução, como alias tu já deverás saber. A recompensa pode ser muito boa, mas para que essa recompensa possa vir tens de apostar e trabalhar para tal.

    Independentemente da tua resposta penso que será um assunto a discutir em familia. Cada caso é um caso.

  • # re: Regresso ao trabalho e reflexões sobre o estado do país
    Luis Abreu
    Posted @ 9/13/2004 9:50 PM
    sim, Joao, tens razao. Obrigado pelas dicas :)
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